Lyria: banda fala sobre o Dia Mundial de Conscientização do Autismo


No dia 02 de abril é  comemorado o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, data criada pela ONU (Organização das Nações Unidas). No Brasil, o dia é utilizado para nos dedicarmos à valorização e à divulgação do conhecimento do Transtorno do Espectro do Autismo. Na música, o Lyria - banda brasileira de metal sinfônico - é um dos principais nomes, levando conscientização para os fãs sobre o transtorno.

É com objetivo de mostrar que o rock e o autismo podem conviver juntos, que o Lyria aborda na música e clipe “The Rain” a situação dos diagnosticados no Espectro. A canção foi inspirada em um poema autobiográfico de um fã autista.

Tudo começou em 2014, durante a campanha de financiamento coletivo para o disco “Catharsis”. Uma das recompensas, era escolher o tema de uma música do Lyria, e foi assim que Warren Mayocchi, da Austrália, sugeriu o autismo como assunto da canção, a ser lançada no álbum seguinte, Immersion (2018). A letra de “The Rain” e o poema de Warren, estão disponíveis em seu livro “Human: Finding Myself in the Autism Spectrum”.

Essa música tem um significado muito especial por tratar de uma questão tão sensível. A sensação da liberdade em estar sozinho, a experiência sensorial com a chuva, a fascinação da infância e a realidade da vida adulta, a necessidade de esconder seu verdadeiro eu para ser aceito na sociedade, etc. Mas o fator mais marcante é que ele percebe que pode ser amado, mesmo sendo diferente. Cada um de nós é uma peça única de um grande quebra-cabeça, e todos são importantes para a engrenagem funcionar.”, conscientiza Aline Happ, vocalista do Lyria.

Quem também leva o conhecimento sobre a causa dos autistas é o baterista do Lyria, Thiago Mateu, que acredita que a música também pode ser terapêutica para autistas, como no caso de Miguel, aluno há sete anos do músico:

Todo autista escolhe o seu ponto de fixação, e ele escolheu a música, especificamente a bateria. Ele até flerta com outros instrumentos, mas nada com a habilidade que ele toca a bateria. É um diferencial total que contribui no desenvolvimento dele. Se eu deixo de montar a bateria corretamente ou esqueço de colocar o prato, ele pergunta: E o prato, cadê o prato? Como pessoa, passei a enxergar o mundo de forma diferente e todo dia aprendo algo com o Miguel”, comenta Thiago, que aperfeiçoou o método de ensino.

O Lyria busca a visibilidade para o diagnóstico do transtorno, que pode ser feito a partir do primeiro ano de vida. Como simpatizante da causa, o objetivo é possibilitar o reconhecimento dos autistas como indivíduos capazes de aprender, superar os obstáculos e contribuir para uma sociedade mais justa.

Em 2019, o baterista do Lyria, Thiago Mateu, concedeu uma entrevista sobre a sua relação com alunos autistas, ao pesquisador Ivison Poleto, que foi publicada originalmente no site Ultimate Guitar.

Como conheceu o Miguel?
Eu nunca tive contato com alguém com autismo antes de conhecê-lo. Eu tive apenas uma experiência com a síndrome de Down, mas fui apenas auxiliar do meu instrutor, ajudando-o a integrar o aluno ao instrumento. Esse instrutor também tinha uma aluna cega e autista, mas sua cegueira era mais grave. Suas aulas eram muito mais auditivas para ela. Ela gostava de samba e costumávamos dar amostras sonoras para sua diversão.

Com base nessas experiências, eu estava acostumado a nunca fugir. Então, por causa disso, aceitei Miguel como estudante em 2013, quando seu pai me ligou procurando um instrutor de bateria em um conservatório onde eu trabalhava naquela época. Ele tinha 5 anos e desenvolveu um interesse no instrumento e costumava praticar com um pequeno kit de bateria que possuía.

Ele começou a tocar bateria aos 3 anos de idade. Mesmo tendo alguma experiência com o instrumento, ele não conseguiu acompanhar. Era comum não me seguir, ficar de cabeça erguida, perder tempo e esquecer, e então ele começou a tocar bateria. Meu plano era fazê-lo tocar bateria, fazer barulho para fazer música.

O tempo passou e eu comecei a conhecê-lo - o que faço com todos os meus alunos. Pela minha observação, conheço o que o aluno precisa. Isso ajudou a manter a chama, porque Miguel ama a bateria. Onde quer que ele vá - McDonalds, por exemplo, ele brinca com os copos e os canudos. Qualquer objeto para ele pode ser a bateria. Ele pensa em uma música, começa a cantar e a tocar.

Quanto às aulas, notei que ele podia tocar ritmicamente, embora seja difícil prestar atenção por causa de sua condição. Então, meu primeiro esforço foi fazê-lo parar de sonhar e obter um ritmo para fazê-lo tocar passo a passo. Houve alguma dificuldade com os pés, ele ainda brinca apenas com o pé, mas toca de ouvido. Tudo o que ele ouve, ele pode tocar. Ele tem muito talento e eu tenho que apoiá-lo. No momento, ele está começando a aprender a ler música.

Após seis anos de aula, até onde ele poderia ir pessoalmente e tecnicamente?
Ele foi muito longe. Ele teve muito progresso social e musical. Eu sei que não é apenas por causa da bateria, mas que desempenhou um papel muito importante em sua vida. O talento é importante, mas a inserção social é mais importante e esse é meu objetivo. Pouco a pouco, tornei-me um terapeuta musical usando a bateria como técnica. Ele está se desenvolvendo muito bem, suas habilidades de comunicação estão ficando boas, ele pode expressar suas emoções. É o incentivo certo. Ele sempre pergunta quando eu esqueço alguma coisa no meu kit de bateria 'Onde estão os pratos?'.

Na sua opinião, como é importante ter esse tipo de contato com arte e música com indivíduos que desenvolvem esse problema chamado autismo?
Em relação à música, é importante que a música conquiste você antes de tocá-la. É inútil dizer que a música funciona por si só como uma terapia se a pessoa não gosta. A música é uma questão de identificação, é uma ferramenta maravilhosa. Para pessoas autistas, que realmente sabem o que querem, e eu aprendi isso com Miguel, elas também sabem realmente o que não querem. A música ajuda muito, mas se a pessoa não gosta, é inútil. No entanto, a musicoterapia amolece alguns casos e até pode curá-los.

Cada nota traz um sentimento, todo sentimento induz um pensamento que induz ações a produzir resultados. Essa é a minha coisa! Estar em contato com o que ouvimos e saber o que fazer. Na condição de Miguel, é importante fazer arte. É sempre bom apresentar arte para crianças. Ele está familiarizado com a música por causa de sua família. Ele se inclinou à música clássica porque sua mãe estudou canto lírico e ele ama bandas como Queen. Ele também adora bandas que misturam sinfonia e bateria. E também, ele tem um bom ouvido para música, ele gosta de Metallica e AC/DC. Ele pode tocar 'Master of Puppets', mas prefere a música clássica por causa das construções mais complexas.

Fonte; OrBe Comunicação
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